amores expresos

domingo, 9 de setembro de 2007

VIDA DURA

Com os malditos miolos boiando em tequila fervente, acordei hoje com uma baita gratidão pelo ibuprofeno genérico que eu trouxe do Brasil e com uma idéia fixa e idiota que só pode ser efeito colateral da ressaca: não se faz boa literatura sem maus sentimentos.

Mas parece que é possível fazê-la sem trema, hífens e acentos diferenciais. Quanto aos maus sentimentos, não vou dizer quais são, até porque alguns são contra mim mesmo. Quando essa inflamação alcoólica nas meninges passar acredito que os maus sentimentos também deverão se dissipar, e com eles a minha chance de fazer boa literatura.

Relendo meu post de ontem, meu orgulho gramatical tropeçou num "a dez anos" no sentido de "faz dez anos". Tudo bem, um H a mais ou a menos não vai mudar o curso da história universal del hombre. Mas se alguma alma benemerente me fizer o favor de botar o maledeto H no devido lugar, agradeço. Vi também que faltavam várias vírgulas e sobravam outras no meu texto. A vírgula, diria Fernando Pessoa citando o Conselheiro Acácio, é como a felicidade: nunca está onde deveria estar porque nunca a pomos no lugar certo, e só por isso.

Puerra, por que esses reformadores gramaticais não acabam de uma vez com vírgulas, concordâncias, regências, crases e outros constrangimentos verbais que tais? Seria um bom pretexto para mais uma rodada de congressos internacionais de lingüistas de países lusófonos, com direito a classe executiva nos aviões de carreira e hotel cinco estrelas em Lisboa, Cabo Verde e Guiné-Bissau, acompanhante incluso.

Se me convidassem pruma boiada dessas eu gostaria de me alistar no comitê pró-extinção da crase. Se até os dinossauros, que eram aquelas galinhas gigantes, foram extintos, por que não também a magra e madrasta crase? Raramente acerto uma. Faço o possível para não escrever "à bordo" e "à pé", e não consigo. E quando chega a hora de escrever "as custas de", cadê o raio da crase? Não sai. Se até o trema foi pro saco, por que não enterram também essa excrescência? Quem precisa de um acento grave, ou mesmo agudo, seja lá onde for? Coisa mais incômoda, sô. À merda com a gramática e os gramáticos, ora buelas.

Ontem encontrei o Romeo Tello Arista, filho do também Romeo Tello, professor de letras e tradutor do Ruben Fonseca aqui no México. 26 anos, cultíssimo, grande papo. Me levou pra tomar cerveza con tequila no Café de la Ópera, no centrão caidaço, viejo e charmoso aqui da ciudad. Tinha lá três violeiros cantantes, mui buenos, aliás, que se acercavam dos casais presentes para lascar seus boleros melosos. Tocado de tequila, pedi a eles que cantassem Malagueña Salerosa, mas longe da mesa em que eu me sentava com o Romeo, pra não sermos confundidos com um casalzinho gay, coisa que por aqui não deve pegar muito bem. Acho que até casais verdadeiramente gays maneram na purpurina aqui. Já bastava o meu novo amigo se chamar Romeo.

O jefe-cantante entendeu o meu drama: "Perfectamente, señor." E lascaram a Malagueña praticamente de costas para nós, preservando nossas reputações de valorosos matchos latino-americanos. No final, el cantante aquél, veio com seu terno, gravata e cabelos fortemente brilhantinados me pedir "Sessenta pesos, por favor." Olha o cara. Bêbado e sentimental, dei-lhe cenzinha. No final, paguei sozinho a conta das inumeráveis tequilas e cervezas que haviam desfilado por nossa mesa. O Romeo merecia a gentileza. Mas, nessa toada vou ter que voltar a pé pro Brasil. Pelo menos vou conhecer a Guatemala e dar um abraço na Rigoberta Menchú, que concorre às eleições presidenciais e está na lanterninha das intenções de voto, coitada, com prêmio Nobel da paz y todo.

O Café de la Ópera data de meados do século 19 e é todo cheio das caraminholas rococós douradas nos tetos e paredes. Bota o Bar Brahma, em São Paulo, no chinelo, mas não a Confeitaria Colombo, no Rio, que é mais bonita. Uma das grandes atrações do café é um furo no teto feito por um tiro disparado por Pancho Villa em pessoa. Acho que o grande revolucionário mexicano bebia sua tequila em paz com algum amigo tão bigodudo quanto ele quando vieram los cantantes babar um bolero pra cima deles. Pancho sacou a garrucha e furou o teto a (ou à?) bala, pra mostrar que não era nenhum maricón de mierda, carajo. Não sei se foi exatamente isso que aconteceu, mas o furo está lá, rodeado por uma espécie de moldura redonda. É, seguramente, o furo mais famoso do México.

Romeo, que é da área das letras filosóficas, está fazendo uma tese sobre a liberdade, nada menos. Diz ele que não é sobre a liberdade em abstrato, mas sim sobre as "liberdades específicas, históricas, concretas." Tomei, então, a liberdade e pedi mais uma rodada de tequilas específicas, históricas e concretas pro garçon. (E dá-lhe ibuprofeno hoje!)

Acabo de receber um e-mail irado de um certo Balthazár Noriega, "mestre peluquero", reclamando da falta de respeito com que eu teria me referido aos povos indígenas mexicanos e sua cultura ancestral, no meu post passado. Alguém leu e bateu isso pra ele aqui no México. Não sei como a figura descobriu meu e-mail. Mas se até os afainosos produtores de penis enlargers não param de me mandar suas sedutoras mensagens é porque não deve ser tão difícil conseguir essa informação. Vai ver, além de barbeiro o maluco também é hacker. Sei é que ele sacou suas tesouras e veio com tudo pra cima de mim. Depois falo disso. Agora vou levar minha ressaca pra passear um pouco por aí - se o mestre peluquero me permitir.

4 Comentários:

Blogger Patrícia. disse...

Reinaldo, gosto muito dos teus escritos. Quando soube que um dos autores do projeto viajaria para o México, achei que você era um cara de sorte. Aproveite muito esse país, as cidades e as pessoas daí Assista um espetáculo de "revueltas silvestres" no Belas Artes. Jante ou almoce na Casa dos Azuleijos, que fica ao lado. Ande pelas ruas de Coyacán. Visite a casa da Frida. Vá até a livraria que fica ao lado da Praça dos Lobos - os livros são muito baratos. Percorra as cercanias da Universidade, do Colégio dos Nobres e pare pra bater um papo com os seis mexicanos que costumam fazer a guarda do Palácio Nacional. Peça para entrar e aproveite os Murais do Diego, Orozco e Siqueiros dentro do Palácio. Se der, vá com seu amigo Romeo tomar uma cerveja índio em Metepec. Depois, vá até Pascoára - uma cidade jesuíta do sec. XVII. Se sobrar uma grana, coma uma paeja em um restaurante na calle uruguai. Tome absinto da época da revolução de 1910 e vá assistir o "gigantes" do ringue mexicano. Peça para o seu amigo Romeo te levar até Chiapas, que é lindo. No caminho, pergunte sobre o Jose Vasconcelos e o projeto de edição de bolso dos clássicos para a população indígena - história danada de boa. Na volta, visite o Archive General de la Nacion - uma antiga prisão do sec. XVI e depois cenário de torturas da inquisição espanhola sob a pecha de Torquemada. Desculpe-me pela intromissão, mas acredite: uma vez no México, nunca mais seremos o mesmo. E tenho pra mim que o seu romance promote!
Abraço, patrícia.

10 de setembro de 2007 03:06  
Blogger alexandre disse...

rei, meu amigo yanomami está estudando aí em df, o helder. depois vou dar o teu email pra ele. trata-se de grande figura. moramos juntos no querosene etc. estou te leyendo acá. beso, ale

10 de setembro de 2007 10:33  
Blogger janaína navarro. disse...

muito bom...

10 de setembro de 2007 11:09  
Blogger Goy disse...

Prezado meu caro: Sobre a crase, concordo com você em parte. Acho que tanto a crase quanto o acento diferencial deveriam ser facultativos. Desse modo, certas construções poderiam tê-los, se necessário, para evitar dubiedades e confusões. A falta do acento diferencial pode criar um problemaço em poemas (especialmente os modernos), por exemplo.
Fico especialmente irritado quando viajo de carro pelas estradas do Brasil: é impressionante! As placas estão sempre erradas! Onde deve haver crfase, não põem, onde não devem lá está ela! "Retorno a direita", "Restaurante à cem metros"!
Mas creio que falta "vontade política" para levar as mudanças adiante...
Abraço
Goiano

23 de outubro de 2007 11:31  

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