amores expresos

terça-feira, 11 de setembro de 2007

SACRIFÁCIO DEL CARILLO

Don Balthazár Noriega, el peluquero irado com a minha suposta desfaçatez no trato da gloriosa história mexicana, não me dá sossego. Recebo de dois a três e-mails dele por dia! Caray, don Gaspí! - como dizia Cantinflas.

El patriótico Don Balthazár insinua que, se anda estivéssemos sob o império dos mexicas, minha língua não continuaria à solta impunemente "haciendo tristes chistes e malas bromas" sobre seus antepassados. Ela seria sumariamente arrancada, junto com meu coração e minha cabeça, em honra a Huitzilopochtli, o deus máximo desse povo que dominou todo o pedaço por aqui, impondo o terror e a escravidão aos demais povos que ousavam disputar terras e recursos com eles, até a chegada de Cortés e seus 300 espanholitos avidos por ouro e sexo, no século 16.

Que meda, madrediós!

Huitzilopochtli, o deus máximo, e todo um panteão de deuses específicos, exigiam do seu "povo eleito", los mexicas, que ninguém mais chamaa de astecas, o sangue e os corações de guerreiros, donzelas, velhos e crianças - escravos dos mexicas, é claro. Em troca pelos sacrifícios oferecidos, o deus concedia aos mexicas o domínio absoluto sobre o mundo por eles conhecido - o que de fato aconteceu. A classe sacerdotal, que se abrigava debaixo do cenho franzido do pétreo Huitzilopochtli, garantia que os seres humanos foram criados pelos deuses somente para alimentar a voracidade do universo vampiresco.

E dá-lhe sacrifícios humanos, que ocorriam praticamente todos os dias do ano nos mais de 80 templos que havia em Tenochtitlan - o berço da atual Cidade do México -, bem como em outras partes da vasta região dominada - leia-se arrasada - pelos mexicas, o que não demorou a incluir também a península de Yucatán, ao sul, e seu povo maya, mais evoluído culturalmente e um poquito menos sanguinário que eles.

Sacrificavam-se vidas humanas a rodo para que o sol brilhasse, a chuva caísse, o milho crescesse, as mulheres parissem filhos fortes, os guerreiros mexicas tivessem força, coragem e habilidade para destruir seus adversários, e também para que a galera em volta se borrasse de medo dos dominadores à mera menção de seu nome.

No apogeu do poder mexica, durante o reinado de Ahuízotl, segundo crônicas espanholas e antigos códices indígenas, houve uma grande festança sanguinária reunindo vários reis aliados, bem perto de onde estou escrevendo agora. Milhares de cativos, de ambos os sexos e de todas as idades, foram trazidos de todas as partes do império para serem degolados, decapitados, queimados vivos e terem seus corações invariavelmente arrancados e servidos aos deuses em recipientes específicos (o cuauhxicalli), sendo que sua carne virava churrasquinho servido à larga aos guerreiros, comerciantes e nobres em lautos banquetes canibais. Talvez tenha sido ali inventado o tão bem sucedido sistema de rodízio de carnes.

Esse verdadeiro holocausto durou vários dias. Os sacerdotes e suas adagas de obsidiana trabalharam sem cessar por dias e noites arrancando corações. Dizem que rios de sangue escorriam do alto dos templos.

O principal resultado disso é que o punhado de espanhóis sujos, tísicos e sifilíticos que por aqui aportaram, em 1519, facilmente encontraram batalhões de aliados entre os povos dominados e sistematicamente massacrados pelos mexicas durante séculos. Em 1521, menos de três anos depois da chegada dos espanhóis, esse tsunami de etnias enraivecidas tomou de assalto Tenochtitlan, sob a liderança de Cortés, e aí, meu filho, já era pros mexicas.

Pronto, Don Balthazar. Contei mais ou menos bem a saga dos seus antepassados sanguinários? Quem quiser saber mais sobre o assunto - inclusive você, Don Balthazar, entre um corte escovinha e um new moicano, na sua peluquería - deve ler "El sacrifício humano entre los mexicas", de Yolotl Gonzáles Torres, a obra mais atualizada e abalizada que há sobre o assunto, editada pelo Fondo de Cultura Económica, uma das melhores editoras da área de humanidades del mondo todo.

Só não prometo ir à sua peluquería entregar-me às suas vorazes tesouras, meu querido Balthazár Noriega. Não queria ter o baita azar (sorry...) de ver orelhas, olhos, língua, nariz e coração abandonarem seus postos tradicionas nesta minha velha anatomia que tão bons serviços tem me prestado hasta ahorita.

1 Comentários:

Blogger alexandre disse...

rei do céu! isso, deixa pra cortar o cabelo na volta...

13 de setembro de 2007 05:23  

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