amores expresos

sábado, 15 de setembro de 2007

TEMPO, TEMPO, TEMPO

Nunca tive nem pretendi ter um blog. Já passo tempo suficiente no computador escrevendo pra fora e pra dentro, fora o rame-rame diário da vida infopostal. Não sei como se vira essa turma de amigos meus que mantêm blogs de qualidade, com momentos de verdadeira genialidade, como o Mário Bortolotto, a Ana Pands, o Caco Galhardo, o Joca Terron, e a Fernanda Dumbra. Eles também escrevem direto, pra fora e pra dentro, como eu, fora os milhões de outros afazeres e prazeres que ocupam seus dias, desde a hora que acordam até a hora que vão dormir, fora a trabalheira psíquica que dá sonhar. Onde arranjam saco, gás, inspiração e, sobretudo, tempo para blogar impunemente?

Tempo, eis a questão. Li uma vez um artigo de um ótimo escritor polonês naturalizado americano, o Louis Begley ("As Max saw it"), acho que na Folha, contando como ele, advogado de grandes corporações, e, desde sempre, o homem mais sem tempo do mundo, sentiu-se profundamente perturbado ao ver, um dia, um outdoor da Japan Airlines com o clássico bordão: Time is all.

Ora, dizia o Begley, se tempo é tudo, e eu vivo sem tempo, isso significa que eu não tenho NADA. O cara ficou mal, coitado. Bem fez o prefeito Kassab em abrir guerra contra os outdoors, que só azucrinam a cabeça das pessoas.

Há muitos anos não tenho a experiência que estou tendo aqui no México de ter todo o tempo do mundo pra mim. Passo boa parte desse tempo revisando meu romance, que já baixou das oitocentas e tantas páginas da primeira redação para mais civilizadas seiscentas. E ainda nem estou na metade da revisão. Certamente vai ismagrecê mais ainda, o danado.

Também me ocupo organizando minhas impressões mexicanas e desenhando esquemas para a novela-roteiro aqui pros Amores Expressos. Mas trabalho quando quero e o quanto quero. Em geral isso acaba somando umas seis horas por dia. Cinco, vai. (Quatro, e não se fala mais nisso.) O fato é que ainda não consegui ficar um só dia sem escrever aqui.

Pensei que hoje, sábado ensolarado, seria um bom dia pra não escrever nada e nem mesmo sair pela cidade buscando coisas para ver e conhecer. Não que eu seja nenhum devoto afainoso do guia Michelin. Sou, na verdade, o pior turista do mundo. Dependessem de mim, as belas vistas, os museus e os sítios históricos seriam devorados pelo esquecimento. Mas sempre acabo dando minhas bandinhas por aí, ora buelas.

Acordei, pois, muito disposto a mergulhar de cabeça na piscina do tempo e ficar boiando nele até o cu fazer bico, como se dizia antigamente, e, às vezes, ainda hoje. (Por que o cu da gente faz bico quando se exagera em alguma coisa, é um desses mistérios proctológicos que jamais serão decifrados, imagino.)

Bom, aí está: não consegui ficar sem escrever. Lasquei uma boa meia-dúzia de paráfrafos, e já me encaminho inexoravelmente para o próximo.

Time is all. Só que, quando não se tem o que fazer, corre-se o sério risco de virar um cronocida. Quer dizer, quando se tem todo o tempo do mundo, acaba-se por matar o tempo. E aí? O que fazer do tempo morto? Enterrá-lo numa página do Word é um das opções mais praticadas pelos letrados do mundo com acesso a um computador.

Taí, vai ver, o segredo dos blogueiros. Os caras evitam ter tempo livre, para não ter de matá-lo fazendo, digamos, palavras cruzadas. Ou jogando paciência. Ou... postando alguma coisa em seus blogs, se me permitem um raciocínio circular e incongruente. (Permitam, vá. Hoje é sábado.)

Porém, se você ganha alguma coisa para escrever um blog - como eu, aqui no México, que tenho estadia e uma diária para gastar -, talvez não seja muito pertinente falar em "matar o tempo". De alguma forma, estou trabalhando. Mas se trabalho, fico sem tempo. Tempo pra quê? Pra matar o tempo, claro.

Qualquer dia vou me inscrever num curso de filosofia, ou de física pura, e tentar entender esse negócio do tempo. Mas não aqui no México. Acá, não preciso me preocupar com o tempo. Só com o espaço. Tempo, quando se está vivo, existe em toda parte, embora nem todo mundo disponha dele, a exemplo do Louis Begley, que está vivo e forte lá em Manhattan, mas não tem tempo.

"Time waits for no one, and it won't wait for me." (Mick Jagger)

(Recebi mais um e-mail de Don Balthazár Noriega, el peluquero patriótico. Nada escrito nele. Só uma foto - de uma adaga ritual de obsidiana negra, igual às que vi no Museo Nacional de Antropología, usadas pelos sacerdotes mexicas para extrair o coração de suas vítimas no alto dos templos. Qual é a sua, Balthazar? Vai cortar os topetes da sua freguesia e vê se non me amuela, puerra.)

2 Comentários:

Blogger ana disse...

que crônica ótima! vai ver é pra isso que serve o blog, e por isso q seus amigos se dedicam a ele, pode ficar cheio de crônica boa e depois, quem sabe, junta td e publica num lugar mais palpável, menos virtual.
um beijo!

16 de setembro de 2007 21:45  
Blogger Cris disse...

Tempo, se não o temos, sempre damos um jeito pra fazer aquilo que a gente gosta.Se temos, vamos logo ao que a gente gosta, porque fazer o que não se gosta não é uma boa escolha... Enfim, com ou sem o amigo tempo, quem escreve, sempre dá um jeito, porque trancadas dentro da gente as palavras sempre dão um jeito de fugir.

18 de setembro de 2007 09:53  

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