EL VIAJERO LÚGUBRE
Ontem fui ao popular Munal - Museu Nacional de Arte Luz de España - no centrão viejo aqui desta increíble Ciudad de México, que só agora estou aprendendo a manejar - e a amar, de paixão. O edifício do museu, do século 19, deixa qualquer um de boca aberta. É um misto de mansão da Família Adams com o castelo do conde Drácula, uma jóia imponente de fantasia arquitetônica eclética e desvairada. Fui lá a reboque do César Carrillo, meu amigo antropólogo interessado em arte, literatura, cinema, política, gastronomia mexicana y todo más, o que inclui a deslumbrante Aquavi, sua charmosa, simpática e inteligente novia.
Embora o Munal tenha um acervo riquíssimo de arte mexicana, desde os acadêmicos do século 19, passando pelos modernistas socialistas de meados do século 20 (Rivera, Orozco e Siqueiros, por exemplo, estão lá), até os contemporâneos, nosso foco era a exposição de um pintor, gravurista e ilustrador mexicano del gran balacobaco, chamado Julio Ruelas.
Esse Ruelas era uma figuraça. Nascido em 1870 no interior mexicano, era filho de um emérito jurista que chegou a ministro de Porfirio Díaz, o presidente-ditador mexicano. Mesmo assim, depois de ter estudado na Alemanha e na França com grandes mestres da pintura, morreu em 1907, aos 36 anos, de tuberculose e miséria galopantes. Um dos expoentes do modernismo decadentista mexicano (sim, existiu tal coisa por aqui), Ruelas, que só se vestia de preto, teve uma existência maluca, misteriosa e, pelo visto, não muito saudável. Bateu as botas numa mansarda do Hotel de Sued, no Boulevard Saint-Michel, em Paris, mesmo lugar onde, sete anos antes, Oscar Wilde tinha batido as polainas.
Consta que Julio dormia com uma puta, quando a moça se deu conta de que seu parceiro estava quieto e frio demais. Em torno da cama, havia várias garrafas de champanhe vazias, e, num canto do aposento, um gato preto observava indiferente a morte do artista. Não por acaso, a exposição de cerca de 100 trabalhos de Ruelas leva o nome de "El viajero lúgubre", predicado que lhe foi atribuído por um poeta amigo.
Tem lá algumas telas a óleo, mas o forte do Ruelas eram os desenhos e gravuras que fazia para ilustrar uma importante revista literária (Revista Moderna, 1898-1911), bem como os livros de seus amigos prosadores e poetas. Faunos enforcados, mulheres escorpiônicas assassinas, centauros moribundos, mocinhas nuas às voltas com diabos de todos os tipos e calibres pululam nos macabros trabalhos do artista, aos quais não faltam pitadas de humor negro e de lubricidade delirante que ajudam a relativizar a atmosfera de morte, tortura e desespero que os envolve. O cara é o fino. Vejam duas definições que dois importantes poetas da turma do Ruelas deram dele
"El diablo, tu divino maestro de dibujo,
en tus sueños proclama la virtud de su influjo
y mandrágoras cortas con tus manos de brujo.
Y como gran artífice de belleza y gran mago,
los cabellos de Ofelia desparrama en tu lago."
(Rafael López)
"La inspiración de Ruelas complácese en la sombra, en la angustia, en el tormento. Es dantesca por excelencia. Viene del infierno, a través de Goya... Nadie como él ha sabido traducir el dolor, un dolor que eriza los cabellos, que hace pensar en un mundo fantasmagórico de suplicios. Las creaciones atormentadas de Ruelas se retuercen sin esperanza en limbos tétricos. Sus símbolos dejan traslucir no sé qué pesadillas inenarrables ..."
(Amado Nervo)
A exposição "El viajero lúbugre" fica no Munal até fins de outubro, e quem vier passear por essas bandas, especialmente a falange das artes plásticas, não pode perder essa chance única de conhecer a obra do Julio Ruelas - ora buelas.
De brinde, segue um desenho intitulado "La Crítica", um dos seus muitos auto-retratos, que expressa bem o que o Julio Ruelas pensava desta velha senhora de tão péssima reputação.
